Segunda-feira, 1 de março de 2021
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OS IGUAIS EMPOBRECIDOS E O DILEMA DA OMISSÃO RELIGIOSA

28/02/2021 - 11:24 | Atualizada em 28/02/2021 - 11:38

Pe. Marco Antônio Gallo

 
Muito além da realidade biológica dos homens e mulheres que habitam a terra, as sociedades desde as eras mais antigas se organizaram politicamente afim de regulamentar as relações com a natureza e entre si, porém  nem sempre essa articulação garantiu a existência de igualdade entre os viventes, daí, além da classificação natural da vida apresenta-se em diversas fases de nossa história uma secundária divisão entre as pessoas membras da casa comum, o termo que mais nos aproxima desse fato é a divisão de classes.
 
Considerando o desejo divino de amor em gerar a partir da Terra os seres humanos, podemos concluir que na perfeição da obra da criação nascemos diante da ordem natural e cósmica iguais diante do direito de vida. Nem uma criança recém-nascida, tem consciência do que possui ou não possui, não cogita escolher o berço ou a rua, comer ou passar fome. Na pureza da vida recém gerada encontramos a inocência dos iguais, isso é, a certeza da plenitude da perfeição da vida dada por Deus, é então o processo de socialização que vai dizer mediante suas estruturas de desigualdades os limites de acesso aos bens de consumos indispensáveis para a integridade da dignidade de cada pessoa humana.
 
Diante do fenômeno da inocência dos iguais é que podemos concluir que a aceitação da desigualdade é imposta paulatinamente na vida dos que a sofrem. Se acreditamos que cada vida nesse mundo primariamente perfeito, é dom de Deus, é Desejo do Divino, se faz necessário buscar a culpabilidade de realidades que destroem essa perfeição ordinária da vida no cosmos. Ao considerarmos a perfeição da obra da criação subtende-se que a natureza é autossustentável, de maneira que há alimento, casa, calor, água, felicidade para todos e que a culpa da fome e demais misérias que desconstroem o direito a plena dignidade localiza-se na forma com que organizamos a regulamentação do acesso aos bens de consumo, e se tratando de estruturas de pecado, aqui pode estar a maior delas: sujeitar iguais a condições desiguais sufocando a divindade escondida dentro de cada ser.
 
Não existem, portanto, pobres! Existem empobrecidos! Não existem pessoas que não tem o que comer, existem pessoas privadas de acessar o alimento necessário para viver bem! Essa realidade está em função da existência de estruturas empobrecedoras que privam os iguais do direito a vida plena fazendo destes os empobrecidos do mundo. A quantidade de alimentos produzido pelo planeta é sem sobra de dúvida suficiente para alimentar toda a humanidade, o que impede que isso aconteça é que diante da articulação sociopolítica, alguns estão favorecidos ao ponto que acumulam o que não necessitam, privando os demais daquilo que por ordem natural já lhes possui em direito de vida. 
 
Essa constatação quando confrontada com as experiências religiosas e as práticas evangélicas encaminha o coração humano pra um discernimento em relação ao modo de vida e de consumo, fazendo da pratica religiosa incompleta quando não se atenta e se coloca a serviço da desconstrução das estruturas geradoras de desigualdades e na reconstrução da fraternidade para a qual o genes divino nos convoca para a vida.
 
Muitas vezes ouvimos falar de uma opção preferencial pelos pobres, e essa opção estagnou-se, em muitas situações, nas instituições religiosas como assistencialismo, fazendo-as acreditar que é necessário colocar-se frente aos sofredores como anestesia das dores continuas, e anestesia passa, em alguns casos deixa até sequelas. Uma espiritualidade enraizada não pode se limitar apenas ao encontro com o “pobre”, muito além disso deve questionar o que o empobreceu. Essa tomada de consciência produz uma guinada no jeito de viver e experimentar a relação com Deus, por dois motivos; o primeiro é que nos envolve permanentemente com a dor dos empobrecidos, uma vez que estamos diretamente ligado às alegrias e tristezas de qualquer ser vivente do planeta, de modo que uma parcela, por mais mínima que seja recai sobre cada cidadão do universo; o segundo é que nos impele a desconstruir o sistema que produz empobrecimento, daí a complexidade de abraçar integralmente a fé e talvez a possível maior explicação dos limites entre o que essencialmente compõe a consciência humana e a fidelidade com o projeto do Reino de Deus.  
 
Uma religião que não propõe o que a teologia vai chamar de kenosis, não possui raízes, mas é preciso entender o que é esse rebaixamento, ou envolvimento kenótico com a vida. Trata-se de um retorno à origem da inocência dos iguais, é como retornar ao primeiro choro, que grita pelo abraço da mãe na certeza de que o terá. Essa experiência se faz necessária não apenas entre nós seres humanos, mas também em relação a toda criação, afinal, tudo está interligado. O problema é que a linguagem da desigualdade está incorporada na percepção da normalidade, basta sair nas ruas de grandes centros e perceber a comum cena de pessoas morando na rua e constatar que na maioria das vezes esse contato sensorial não produz nem um ou pouquíssimo estarrecimento na alma.
 
A luta contra o empobrecimento é sem sombra de dúvidas uma das bases que dão significação aos modelos religiosos, de modo que uma religião que não questiona e intervém na desigualdade produzida pela injustiça é uma religião que não possibilita a coparticipação na edificação do Reino, portanto, trata-se mais uma vez de apenas um corpo inútil diante da dura verdade da vida. Essa missão religiosa pressupõe também uma linguagem que contrasta aquela que expressa o sofrimento dos empobrecidos, o contrário disso é conivência com o mal social que assola milhões de irmãos, e nesse sentido devemos retornar às questões fundamentais que norteiam essa nossa reflexão: o que fazemos? Como fazemos? E porque fazemos?
 
Na vigência do sistema capitalista há muito mais medo de um assaltante do que de um mendigo, e não devia ser assim, pois não se deve temer o que irrompe a normalidade e sim aquilo que nitidamente é sintoma de uma doença social, mas que caiu na casualidade do dia a dia. Precisamos ativar o modo indignação das posturas religiosas, pois esse estado de espirito de uma pessoa ou comunidade frente as mazelas produzidas pelo desigual caminhar da sociedade representa o primeiro passo de admissão da necessidade de fazer valer a redenção, considerando o processo dela: encarnação, convivência, rebaixamento e elevação dos que estão no plano dos esquecidos e pisoteados.
 
Se olharmos para a vida de Jesus, veremos que todo o seu encontro pessoal com as diversas personalidades emblemáticas no evangelho, representa uma luta contra o empobrecimento, ora aplainando os que pisoteiam, ora reerguendo os pisoteados. Dos exemplos claros disso é; Zaqueu que precisa descer da arvores e sentar-se à mesa para se dar conta de que é necessário devolver aos empobrecidos o que deles lhes foi tirado e o da mulher pega em adultério, e tendo o messias abaixado a sua condição de condenada se reergue para uma vida nova plenificada pela dignidade não apenas da misericórdia, mas sobre tudo do reestabelecimento sociopolítico.  
 
Com a quantidade de crentes e seguidores do cristianismo o problema do empobrecimento seria facilmente amenizado se todos estes percebem-se que a fé que passa pela indiferença é volátil e ineficaz e aqui tocamos num ponto que compete a moral religiosa refletir: as estruturas de pecados sociais e a maneira com que a indiferença pessoal e comunitária representa a adesão pecaminosa a essas estruturas.
 
Rebelar-se contra o sistema empobrecedor dos iguais deve ocupar espeço constituinte na ética da religião, pois trata-se de uma rebelião contra a desintegração da vida e uma reconstrução da paz que nunca deveria ter sido interrompida. E não se pode negar a expressiva terminologia “rebelião” , não pelo processo necessário, mas pela legalização e institucionalização dos meios de empobrecimento das massas, reais nos códigos econômicos, administrativos, políticos e educacionais.
 
Para encontrar o método dessa rebelião é necessário considerar a ordem natural e amorosa da vida; todos os seres são chamados para viver harmonicamente numa lógica divina da estável condição de vida do planeta, e aqui já no início da proposta desponta o primeiro obstáculo: a lógica estável do planeta já foi desafiada e apunhalada, ao mesmo tempo reafirma a necessário compreensão vital, uma questão ecológica que não diz respeito apenas as arvores, os rios, as terras e o animais, mas que compreende o ser humano empobrecido como membro do corpo sofredor do universo. Esse fato aumenta muito a complexidade da situação, pois o empobrecimento já está tão velho que se tornou rígido e causador de mais conflitos no coração da terra. Deste modo creiamos que o mesmo Deus que lacrimeja ao ver desordem da vida, concede a graça necessária para que todos os humanos e humanas assumam e percebam que pertencem também a carne dos sofredores, e enquanto estes haver, a felicidade é impossível.

3 comentários

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  • Maria José Gomes Coelho de Castilho 20/01/2021 - 06:48

    Quando não me vejo no outro ,não sinto as necessidades do outro.

  • Mais de Lurdes 18/01/2021 - 20:55

    Estamos tão acostumados com essa divisão injusta de classes que não nos indignamos ao ver crianças no lixão, pessoas adultas procurando comida no lixo... Quando muito nos sentimos incomodados, comentamos sobre e talvez fazemos uma breve oração pedindo a Deus que transforme a vida daquelas pessoas, como se fosse responsabilidade de Deus e não nossa! Outras vezes até tomamos uma atitude assistencialista de doar uma cesta básica para minimizar a situação. Mas só isso não resolve o problema! Como diz o Padre Marco Antônio, temos que estudar e conhecer as causas do empobrecimento para atuarmos na luta pela mudança na estrutura da sociedade à qual pertencemos. Parabéns Padre Marco Antônio e obrigada por nos fazer refletir! Não desista do pastoreio. Tenha paciência com sua igreja. Uma hora nós criaremos coragem e assumiremos o papel do verdadeiro cristão! Que o Espírito santo de Deus esteja sempre contigo e nos ilumine acendendo em nossos corações o fogo do seu amor para que possamos passar por uma verdadeira conversão!

  • Sandro Saggin 18/01/2021 - 16:34

    Excelente texto. Brilhante na verdade. Muito esclarecedor. Parabéns ao seu autor e ao site que o publicou,

 

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