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Mal em campo, Botafogo afunda em crise administrativa e sobrevive ao ano por "favores"

Em grave crise financeira e à espera da S/A, clube recorre a cardeais frequentemente para manter o mínimo funcionamento de suas atividades, inclusive para bancar a realização de jogos

27/11/2020 - 10:09

Globo Esporte

A necessidade de uma gestão profissional é compartilhada não só pelo alto escalão do Botafogo, mas os sufocos diários em todos os âmbitos fazem funcionários e atletas acreditarem que só mudanças radicais podem garantir o futuro do clube. Em grave crise financeira e à espera da S/A, o Botafogo sobrevive de socorros frequentes para manter o mínimo funcionamento de suas atividades.

Além de empréstimos para quitar contas básicas, como água e luz, o Botafogo por vezes não consegue bancar a realização de jogos tanto da base quanto do profissional. O ge apurou que a partida recente contra o Fortaleza, por exemplo, só aconteceu com a ajuda de um cardeal.

A avaliação interna é de que o Botafogo só sobrevive até o momento por dois motivos: antecipação das receitas de TV e a venda do atacante Luis Henrique ao Olympique de Marselha, que pagou ao clube R$ 25 milhões em parcelas.

Quando a primeira entrou no caixa, foi gasta em questão de poucas horas. As outras partes, o clube teve que pedir adiantamento para não ficar ainda mais no vermelho. Perdeu um pedaço para o banco em juros, mas quitou contas urgentes. O total foi destinado ao pagamento de dívidas e outras despesas operacionais.

Exemplos da gestão "amadora"

O amadorismo - no sentido literal e não necessariamente pejorativo - é uma das críticas feitas à administração do Botafogo e de outras equipes brasileiras. No clube alvinegro, há exemplos recentes de planejamento equivocado que compromete a temporada e as finanças.

Em novembro de 2019, o Botafogo exonerou o então vice-presidente de futebol Gustavo Noronha, função que foi acumulada pelo VP comercial e de marketing Ricardo Rotenberg. Um mês depois, perdeu o diretor de futebol Anderson Barros, que se transferiu para o Palmeiras.

Novamente, o clube não nomeou outro profissional para o cargo, e a decisão foi pela criação de um comitê de futebol com pessoas que já faziam parte do dia a dia do Botafogo. A ideia era que o grupo durasse até o primeiro semestre, quando sairia a S/A, mas só foi encerrado com as eleições do último dia 24. Muito em função da contratação de Túlio Lustosa, novo gerente de futebol.

A criação do comitê trouxe de novo ao dia a dia uma figura emblemática da história do Botafogo: o eterno presidente Carlos Augusto Montenegro, à frente do clube no título brasileiro de 1995. Não estava exercendo nenhuma função no Bota, mas continuou presente na política alvinegra.

Montenegro é o grande responsável por "apagar incêndios". Como custear operações de jogos, pagamentos de contas básicas e até compra de bolas, como o próprio cartola revelou. Além dele, pelo menos outros dois "torcedores ilustres" ajudam com frequência.

A relação com os botafoguenses é de amor e ódio. Gratos eternamente por tudo o que o ex-presidente fez e faz pelo clube, a figura de um mandatário à moda antiga, que fala o que quer, é questionada. Se dinheiro é poder, Montenegro teve, em muitos momentos na temporada, a última palavra nas decisões do Botafogo.

No meio disso tudo, uma cara nova apareceu: Marco Agostini. Incluído no comitê no início de 2020, ele foi figura presente na pré-temporada, no Espírito Santo, e nomeado VP de futebol meses depois. O papel era ser a voz da gestão no contato diário com atletas e comissão. Mas não aconteceu bem dessa forma.

Apesar de estar no dia a dia do elenco, o ge ouviu de algumas pessoas que Agostini não tem autonomia para tomar decisões. O dirigente, vale lembrar, foi escolhido para ser o elo diário também com a imprensa, mas se manteve distante de relações com os jornalistas.

Enquanto se esforça para tirar a S/A do papel, o Botafogo tem um objetivo mais urgente e que pode influenciar na transformação do clube em empresa: a permanência na Série A do Brasileirão.

Na tentativa de recuperar o ânimo do elenco para a sequência da temporada, o Botafogo cogitou levar um palestrante motivacional para conversar com os jogadores antes da partida contra o Atlético-MG, o que aconteceria em parceria com o novo patrocinador master. A possibilidade não está descartada, já que a confiança do grupo está abalada.

Um problema a menos nesse momento é que o clube tem garantidos salários em dia até dezembro por decisão judicial. Outro é que o Botafogo, a princípio, não terá dificuldades para manter o atual elenco até o fim do campeonato nacional, em fevereiro de 2021.

O problema é que as saídas que já aconteceram foram sentidas. Principalmente as de Luis Henrique e Luiz Fernando, já no meio do Brasileirão. No caso do garoto de 18 anos, a proposta vinda da França foi irrecusável. Situação diferente aconteceu com Luiz Fernando, já que os cerca de R$ 1 milhão recebidos do Grêmio foram penhorados. Mesmo que não fosse, representaria praticamente um terço da folha do departamento de futebol.

Quem teve proposta e ficou foi Pedro Raul, mas a contragosto. O jogador quis sair em determinado momento da temporada, rumo ao Internacional, mas o Bota não gostou da proposta. Após um bom primeiro semestre, o centroavante caiu de produção e não tem titularidade garantida como antes.

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